CAPITALISMO E ECOLOGIA
UMHA FOCAGE INTEGRAL DO CONFLITO ROI FERREIRO
Hoje a ecologia tornou-se aparentemente um lugar comum dentro da “esquerda”. Esta virage histórica foi especialmente vissível na extrema esquerda tradicional durante os anos 70 e 80, por mor, sobretudo, da tentativa de canalizar os movimentos ecologistas em benefício dos partidos leninistas em descomposiçom, ou de realimentar o também maltreito movimento libertário “oficial”. Na década dos 90 esta mudança proseguiu com mais força ainda, como expressom dumha desconfiança consolidada face o potencial transformador ou revolucionário da classe trabalhadora (1) -a qual tivo o seu corolário na emergência das ideologias cidadanista, anti-globalizaçom, etc., e em geral na extensom das diversas posiçons políticas que negam a centralidade da classe trabalhadora na luita contra o capitalismo. Este contexto histórico, caracterizado polo refluxo da luita de classes, especialmente nas suas formas tradicionais, junto coa crescente atençom prestada por parte da esquerda reformista e pseudo-revolucionária, foram a potenciar relativamente os movimentos ecologistas, tanto internamente como perante a maioria da sociedade (2).
Neste contexto, por umha banda espalham-se as ideas ecologistas, tendentes a despraçar para um lado os conflitos “intra-sociais” em favor dos conflitos “ecológicos”, na acepçom prevalecente de conflitos da estrutura social coa natureza exterior. Por outra banda, a ideologia política dominante começou a tomar cada vez mais em consideraçom essas questons ecológicas, sobretudo quando constituem focos potenciais de desestabilizaçom económica e política e/ou ponhem em perigo a sustentabilidade da valorizaçom do capital, verdadeiro objetivo da economía capitalista. Esta última tendência vem-se agudizando nos últimos anos, dado que as constataçons acerca do quentamento global constituem umha verdadeira ameaça económica para a classe dominante -nom só, pois, para os osos polares, a qualidade do ar ou a supervivência nos países mais empobrecidos, enormemente frágeis ante as alteraçons económicas e as catástrofes naturais.
O NEXO COMUM DAS PERSPECTIVAS PREVALECENTES SOBRE O CONFLITO ECOLÓGICO
Ambas focages, a do ecologismo de oposiçom e a da política guvernamental, aparentemente mui polarizados, compartem embora um nexo comum enormemente importante: ambos tendem a construir a representaçom ideológica do conflito ecológico que privilegia a contradiçom social entre o entorno natural e o desenvolvimento material da sociedade, situando aos seres humanos meramente como vítimas ou culpáveis, diluindo qualquer focage de classe. Em outras palavras, ambas focages partem da assunçom do capitalismo como um dado natural, e por conseguinte, som capitalistas no amplo sentido social do termo. Em conseqüencia, negam que o conflito ecológico seja um conflito concreto entre a dinámica essencial do capitalismo, que só reconhece a natureza como capital potencial (materias primas, territorios de instalaçom e os próprios seres humanos enquanto força de trabalho empregável), e a natureza como um tudo. Um tudo vivo, no que nom existe separabilidade real entre o entorno, as especies e os individuos, já que constituem todos umha unidade indivissível, nom somentes do ponto de vista biológico, mas também social. Os recursos vitais da humanidade procedem da natureza e a humanidade é à sua vez parte orgánica do ecosistema planetar: de jeito que o conflito ecológico é essencialmente um conflito social, um conflito entre a existência integral humana e o tipo de relaçons sociais através das quais se reproduz a humanidade como comunidade histórica, é dizer, a forma da sociedade humana.
As ideologias ecologistas tenhem situado, portanto, o debate político em termos de sustentabilidade ou insustentabilidade natural do desenvolvimento económico e social. Olham para os seres humanos como individuos abstractos e livres -consumidores, cidadáns ou seres humanos em abstracto, ahistóricos-, ou seja: tal e como som determinados a comportar-se e ver-se ilusoriamente a si próprios pola sociedade capitalista. Deste modo, a sua perspectiva social se reduz a tentar “conscientizar” ecológicamente à massa, que se supóm livre mas ignorante ou negligente respeito dessas questons. Mas sobretudo estas ideologias marginam do debate a questom ecológica mais directamente social e, por tanto, que incorpora maior potencialidade quantitativa e qualitativa de conflito social: a das condiçons ecológicas orgánicas da vida humana dentro da sociedade capitalista.
Estas condiçons nom se refirem somentes às relaçons co entorno natural. Se consideramos o ser humano como parte da natureza, a própria vida humana em todos os aspectos tem que formar parte da nossa focage. Entom, a forma de vida prevalecente, que se opóm ao pleno desenvolvimento e realizaçom das necessidades e potencialidades naturais dos individuos, ao desenvolvimento harmónico da sua natureza vivinte -escraviçando-nos no trabalho e no consumo, inibindo e reprimindo os nossos impulsos naturais, criando umha forma de vida que, em conjunto, subordinando a vida como tal à acumulaçom de capital (cujas conseqüencias som a divisom entre cidade e campo, a sobre-concentraçom da poboaçom nas urbes, as formas de transporto quotidiano das persoas, o consumismo, a separaçom da vida natural em geral)-; este modo de vida anti-natural, que degrada o potencial humano inherente às persoas e mina a sua saude de todas as formas possíveis, este modo de vida constitue o verdadeiro centro-raiz do conflito ecológico. Neste ponto, assuntos como a recolhida e reciclage dos residuos urbanos nom som mais que necesidades primarias e formam aspecto mais superficial do assunto.
Como conclusom preliminar, na situaçom socio-política actual trata-se, para @s que queremos pular por umha transformaçom completa da sociedade, de achar umha focage verdadeiramente social, proletaria, que reconheza aos individuos explorados e dominados dentro da sociedade capitalista como os verdadeiros protagonistas da luita ecologista, situando a vida quotidiana como totalidade como o objeto da acçom ecológica. No lugar de seguir a focage burguesa prevalecente, na que minorías “conscientizadas” e independentes da iniciativa popular se oponhem aos poderes establecidos como “representantes da natureza”, “defensores dos animais”, etc. (ou seja, como individuos abstractos), prescindindo por completo de qualquer focage social e concreta para construir um movimento ecológico de massas, e para superar a cissom entre conflitos sociais e ecológicos em favor da transformaçom geral da sociedade e do confronto dos poderes económicos, políticos e ideológicos solidamente establecidos.
O CONTEXTO SOCIO-HISTÓRICO ACTUAL E A DINÁMICA GLOBAL DOS CONFLITOS ECOLÓGICOS
Fica claro, entom, que a dinámica do desenvolvimento capitalista e da luita de classes constitue o trasfundo que hai que clarificar para: 1) avaliar seriamente se é possível um movimento ecológico de massas -o que supóm nom confiar em minorías “conscientizadas” que actuem como grupos de pressom autónomos sobre os poderes establecidos- e conhecer o modo concreto em que o conflito ecológico vem sendo determinado polo capitalismo.
A crise económica dos anos 70 sinalou a transiçom do modelo económico caracterizado pola actuaçom do Estado como impulsor da acumulaçom capitalista geral (3), para o modelo actual, caracterizado pola reduçom dessa funçom produtiva e redistributiva do Estado e a intensificaçom do seu carácter de máquina essencialmente capitalista e repressiva, fusionando-o completamente co grande capital e excluindo qualquer representaçom efectiva dos interesses gerais d@s trabalhadore/as. Esta mudança política foi o suporte necessário da ofensiva económica capitalista que vimos experimentando em todo o mundo desde entom: incremento absoluto da explotaçom do trabalho -aumento de jornada, reduçom do valor real dos salários, intensificaçom de ritmos de trabalho sem compensaçom- e redistribuiçom dos impostos e do gasto público em favor da classe capitalista -em detrimento das necessidades sociais de sanidade, vivenda, ensino ou infraestruturas básicas, além das políticas ecológicas de alcanço. A persistência desta dinámica regressiva do desenvolvimento capitalista durante as três últimas décadas é, do ponto de vista da teoria marxiana, a expressom da decadência aberta do capitalismo como modo de produçom, que se torna cada vez mais incompatível coa existência da sociedade humana (4).
Este é o contexto histórico-social actual e somentes compreendendo-o poderemos avaliar a questom da sustentabilidade ecológica do capitalismo. Sem isto, as afirmaçons em favor ou em contra nom passam de argumentaçons acientíficas, cujos pressupostos ficam sem clarificar e discutir racionalmente, que ao final servem a determinados interesses políticos e nom ao desenvolvimento da consciência colectiva. Ditos interesses políticos, ainda que que podam ser progressivos (estimulando incluso a luita anticapitalista), ao recurrir à crítica fázil e a argumentaçons pobres ou escuras, subestimam a complexidade prática do processo de desenvolvimento histórico da consciência social, necessário para construir um movimento anticapitalista de massas. Além, promover na gente ideas falsas ou verdades a meias, ainda que seja com boas intençons, a longo praço somentes leva a decepçons maiores e riscos para os que @s implicad@s nom estavam previdos, favorecendo-se assi umha dinámica dissolvente no movimento (5).
Como já se dixo, o capitalismo é um sistema económico cuja fim é a acumulaçom de plusvalor. Mas é preciso entender que esta finalidade nom vém establecida pola cobiça dos empresários ou pola competência, como crê a consciência vulgar, mas pola dinámica caótica de desenvolvimento que sempre caracterizou à economia capitalista. Formalmente, esta dinámica deve-se ao funcionamento separado das distintas unidades económicas, mas nom tem a sua causa nessa separaçom (na propriedade privada particular como forma económica dominante) senom na própria relaçom do trabalho assalariado. Esta relaçom é a causa última de que essa forma de propriedade particular seja a forma característica e dominante da economia capitalista.
A relaçom do trabalho assalariado funda-se na distinçom entre trabalho necessário e o trabalho excedente (plustrabalho), que a través da forma valor transformam-se de quantidades de tempo de trabalho em salários por um lado e plusvalia polo outro. Como explicara Marx, co desenvolvimento histórico das forças produtivas a proporçom entre trabalho necessário e plustrabalho, para um volume de produçom igual, varia devido à reduçom tecnológica do trabalho humano que é necessário empregar. Isto origina porém a tendência descendente da taxa de benefício -o que os capitalistas particulares nom percibem directamente, mas através dos resultados do mercado. A alteraçom generalizada da proporçom entre trabalho necessário e plustrabalho significa que, mentres a elevaçom da produtividade do trabalho graças à técnica aumenta o volume de mercadorias em circulaçom, ao mesmo tempo diminue o ritmo no que a massa da poboaçom trabalhadora pode ser empregada na actividade económica, criando assi umha descompensaçom que, finalmente, resulta na desaceleraçom do crescimento do mercado, frente a umha produçom que segue nom obstante a incrementar-se aceleradamente (para amortizar as novas inversons tecnológicas e manter e aumentar a quota de mercado), até o ponto de que o déficit de mercado depreme a taxa de benefício e provoca umha crise geral. Dado que esta dinámica contraditoria está presente em cada capital particular, a tendência descendente da taxa de benefício estimula continuamente a competiçom e explotaçom do trabalho (6).
Da lei de descenso da taxa de beneficio se deduz que, chegado um nível de desenvolvimento histórico da composiçom técnica media do capital a escala mundial, a tendência descendente da taxa de beneficio agudiza-se até o punto de que a acumulaçom privada de capital somentes pode subsistir com base na degradaçom continuada e absoluta do trabalho humano e das condiçons de vida d@s trabalhadores/as. E se o trabalho humano é parte da base natural do capital, as relaçons capitalistas co resto da natureza tendem a padecer igualmente as conseqüências da dinámica regressiva.
Desta análise nom só se deduz fazilmente que o capitalismo é umha forma de economia intrinsecamente conflitiva cos ecosistemas. Mas também que essa conflituosidade póm-se mais de manifesto conforme o capitalismo se desenvolve técnica e económicamente (expandindo a sua actividade a todos os pontos da vida social e expandindo a própria poboaçom), de forma mais extrema na fase histórica actual, quando confluem a sua regressividade como modo de produçom social coa mundializaçom das suas actividades. Por conseguinte, o capitalismo sempre foi e será um sistema anti-ecológico, tanto face a vida humana como face a vida natural em conjunto (o que na práctica vem sendo o mesmo, directa ou indirectamente). Porém, a dinámica do conflito ecológico é variável e complexa.
No entanto o fundamento da produçom capitalista nom som materias primas ou processos de transformaçom materiais particulares, mas o processo de valorizaçom por sí próprio, o conflito capitalista coa natureza exterior nom é irresolúvel dentro dos parámetros funcionais do sistema (técnicos, organizativos, gestoriais, políticos, etc.), embora seja, ao mesmo tempo, umha propriedade inerente à relaçom do capital, enquanto forma de relaçom alienante coa natureza no seu conjunto. Assi pois, técnicamente é possível desenvolver um capitalismo ecológico. E esta possibilidade fica corroborada pola apropriaçom capitalista das novas tecnologias mais ecológicas (por exemplo as fontes de energía renováveis ou a reciclage dos resíduos urbanos e industriais). Assí, a “ecologia” veu-lhe a abrir ao capital novas áreas de negócio, e seguirá a faze-lo. Por outra parte, o desenvolvimento tecnológico possibilita a criaçom e produçom a grande escala, e baixo custo, de materiais artificiais -o que, nom obstante, só se realiza em funçom da rendabilidade privada e dos interesses gerais do capital tal e como estám políticamente representados e “legalizados” no momento. Assi, materiais de orige natural podem ser substituidos por produtos artificiais mais ecológicos, tal como hoje a indústria do automóvel está a introduzir lenta e progressivamente o desenho ecológico, como recurso ante o problema da escaseza do petróleo além de como reclamo adicional para o consumo “políticamente correcto”.
Mas se os conflitos ecológicos exteriores som solúveis técnicamente cada vez mais, e em muitos casos a meio e incluso curto praço (de existir a vontade), os interesses capitalistas maioritarios oponhem-se continuamente a estas soluçons, que devaluariam o actual capital em funçons que tenha umha composiçom técnica menos ecológica (7). Em outras palavras, som as relaçons sociais de produçom capitalistas as que impedem o desenvolvimento ecológico como o progresso da qualidade de vida humana. Por quanto na época actual o capitalismo mundial acha-se imerso numha dinámica socialmente regressiva, isto também supóm a intensificaçom do conflito ecológico, co engadido de certas explotaçons de recursos naturais (petróleo, deforestaçom) e formas de destruiçom ambiental (contaminaçom do ar e da auga) terem chegado ao extremo da sustentabilidade natural do ecosistema planetar (tal e como o conhecemos). Assi a resistência do capital solidamente establecido no mercado mundial aumenta, namentres a inovaçom ecológica capitalista limita-se a umha parte relativamente pequena do capital mundial. Isto fará que, sem dúvida, na prática que o conflito ecológico persista, na sua face exterior, indefinidamente também. Somentes será confrontável meiante umha luita massiva, do mesmo modo que os rasgos directamente anti-sociais do sistema. Se nom é assi, seguiremos como até agora, quando pretensas minorías representativas assumem pola sua conta a luita ecologista, ou a classe trabalhadora segue deixando os seus assuntos em maos de representantes (falsos além) sindicais e partidarios, todo o qual da por resultado umha mera paliaçom parcial e precária dos problemas da vida no planeta, paliaçom que nom compensa em nengum modo polos efeitos destrutivos do sistema. Além disso, proseguirá a dinámica política de recuperaçom: o projecto ecológico seguirá a ser cada vez mais recuperado e institucionalizado polos poderes dominantes e as suas comparsas reformistas e pseudo-revolucionárias, em grande medida graças à própria focage capitalista subjacente dos grupos e movimentos ecologistas (8).
Em fim, se o conflito ecológico entre capitalismo e meio ambiente pode ser transitoriamente resolto umha e outra vez graças à luita, nom deixará porém de ocasionar graves conseqüências para a vida planetaria, especialmente para a vida humana. Este último matiz é o que esquecem muitos ecologistas ideológicos, namorados da natureza exterior: as alteraçons produzidas pola alteraçom do clima a escala global som potencialmente mais perigosas para os seres humanos do que para muitas das formas de vida do planeta e para a supervivência a grande escala do ecosistema planetar. Nisto revela-se a paradoxa de que, ainda que já estejamos habituados a pensar nos problemas ecológicos como exteriores ou adjacentes à existência mesma da especie humana -ou seja, fazendo abstracçom das determinaçons sociais e históricas-, na prática seguimos predominantemente a foca-los dumha perspectiva antropocéntrica e, por extensom, socialmente determinada pola posiçom de classe na sociedade (tanto o primeiro como o segundo inconscientemente).
Provavelmente, coa crescente divergência de desenvolvimento económico internacional, especialmente na linha norte-sur, o conflito ecológico despraçara-se cada vez mais dos países mais desenvolvidos para os menos desenvolvidos, como já leva acontecendo nas últimas décadas meiante o despraçamento das inversons estrangeiras e a relocalizaçom de industrias, ou meiante as dinámicas de desenvolvimento endógeno local, que empregam ainda tecnologías obsoletas (próprias ou compradas mais baratas aos países ocidentais) e carecem de políticas ecológicas -as que, dadas as circunstáncias, suponhem restringir o desenvolvimento capitalista local. Porém, também aquí o conflito ecológico pode tender a combinar-se indisoluvelmente co conflito social, como acontece nos casos da privatizaçom da auga e do crescente controlo monopolista transnacional sobre a agricultura graças à biotecnologia.
PARA UMHA FOCAGE INTEGRAL E REVOLUCIONÁRIA DA LUITA CONTRA O CAPITALISMO
A diferência da face exterior do conflito ecológico, potencialmente atenuável en tudo caso, a sua face interior, a que atinge a natureza humana -a vida orgánica como um tudo-, nom deixará de agravar-se material e espiritualmente, apesar dos avanços médicos e farmacológicos e dos novos dispositivos culturais que começam a valorizar socialmente a saúde física e psicológica -dentro dumha focage comercial e conservadora (subsumindo o valor de ser no valor de ter e fazendo-o assi objeto de troca também).
Co incremento da explotaçom do trabalho em termos de duraçom e intensidade, da subsunçom técnica do trabalho no capital (que o fai meramente funcional à maquinaria de cadeas de produçom cada vez mais automatizadas) e da subsunçom do conjunto da vida humana nos circuitos da valorizaçom do capital, coa expansom económica e tecnológica dos meios de informaçom e “entretenimento” capitalistas, estamos a presenciar o crescimento acelerado, massivo e totalitario da autoalienaçom dos individuos. Esta agudizaçom da autoalienaçom humana nom pode ressolver-se simplesmente estimulando a luita por objetivos exteriores. Exige umha verdadeira transformaçom revolucionária da subjetividade, que somentes será possível se se vam criando e desenvolvendo, simultaneamente às luitas, umha totalidade de formas de actividade humanas nom alienantes, que permitam e estimulem o desenvolvimento dos individuos como sujeitos autónomos e que conformarám assi as bases dum movimento revolucionário integral.
Umha olhada seria à história das últimas décadas, por nom dizer a todo o século passado, deveria fazer entender que este processo revolucionário complexo situa-se actualmente como o fundamento imediato, o ponto de arranque auténtico, da constituiçom de qualquer movimento de luita massivo, que aponte a objetivos qualitativos e/ou que pretenda perdurar como força transformadora nom integrada no capitalismo.
A dinámica vital dos individuos, subsumida no materialismo mercantil e no espectáculo da vida (apesar do aspecto libertador das tecnologías informáticas), cristalizada no círculo pechado da valorizaçom capital (produçom - circulaçom física e publicitaria - consumo), nom só produz a auto-anulaçom das capacidades intelectivas e criativas, também agudiza os problemas psicológicos e psico-somáticos (9), o que de facto concreta-se actualmente na extensa plaga de depressom e ansiedade que assola a sociedade e, mais ainda, está a dar lugar a umha verdadeira degeneraçom humana, que destrue a autonomia, a criatividade, a fraternidade e a sinceridade das persoas. Este modo de vida anti-natural é a raíz do estado de apatia e desesperança que, mais sutil ou mais abertamente (e maiormente já subconscientemente, reconhecendo essa atitude vital como algo “normal”), impera hoje respeito dos grandes projectos de transformaçom social e humana, e que se extende mesmo à perspectiva do progresso social em geral.
Em conclusom final, o conflito ecológico, tal como é focado de forma prevalecente, tanto desde os poderes establecidos como desde a oposiçom ecologista, nom é um conflito revolucionário. A teoria do desenvolvimento ecológicamente sostível do capitalismo é, partindo deste ponto de vista, realizável, ainda que seja imperfeitamente e com continuas fricçons e sem provir umha auténtica soluçom para os grandes problemas da humanidade. Embora, se se adopta a focage integral e revolucionária aquí proposta, o conflito ecológico seria assumido conscientemente desde a perspectiva humana e, assi, superadas tanto a focage reformista, aclassista e ahistórica, como as focages antropocentrista e tecnologicista do problema, que perdem de vista o essencial: a autoalienaçom humana como fundamento comum das relaçons destrutivas que establecem os seres humanos entre si, co entorno natural e consigo mesmos.
Desta perspectiva, pois, o conflito ecológico identifica-se co conflito integral que existe entre o capitalismo e a sociedade que el produz, por um lado, e o desenvolvimento livre e pleno da vida humana para @s explorad@s e @primid@s do planeta, polo outro. A luita de classes pode compreender-se assi como luita ecológica, em lugar de separar as luitas sociais e as luitas meio ambientais e pretender que umhas ou outras sejam a base efectiva da oposiçom ao capitalismo (10). Deste jeito, será possível combatermos a separaçom existente entre os problemas sociais e os problemas ecológicos, para faze-los converger num movimento de luita comum. O reconhecimento público crescente de que os problemas ecológicos já nom podem considerar-se “secundários” e devem ser tratados como assuntos sociais e políticos, supóm o golpe de graça definitivo tanto para a visom reformista e conservadora da esquerda tradicional (que, em nome dos interesses sociais, de classe, etc., pretende pospôr para o futuro a sua abordage e separa as necessidades humanas segundo a jerarquia economicista própria da economia capitalista) como para a visom ecologista dominante, que adopta a focage inversa mas igualmente reformista.
A focage integral e revolucionária é tanto mais necessária por quanto que, os obstáculos à luita colectiva nos conflitos ecológicos e nos conflitos de classe, arraigam psicológica e culturalmente na assunçom do valor de troca como eixo das relaçons humanas. Nas relaçons interpersoais e co entorno natural, e ainda na atitude global respeito da cultura, o valor de troca instalou-se como eixo vertebrador da vida, de maneira que o valor das relaçons e actividades humanas fica referido ao sentido do ter, ao enriquecimento possessivo. Assi, o sentido do ser fica marginado e relegado, o que afecta directamente à valoraçom recíproca dos seres humanos, que se vem os uns aos outros como meros instrumentos (força de trabalho) dos que servir-se para beneficio egoísta, do mesmo modo que acontece na relaçom capital-trabalho. Desta forma, a relaçom do capital extendeu-se a todos os momentos da vida humana, destruindo o sentido de comunidade e construido umha consciência fragmentante e egocéntrica; consciência que nom somentes despreça o ser -e com el o deleite, o amor e todos os sentimentos e atitudes espontáneas que se derivam da comuniom dos individuos entre si e coa natureza-, mas póm psicológicamente a cada individuo como capitalista frente aos outros e cria deste modo um sentimento de separaçom e de indiferência utilitaria face o conjunto da vida, como se apreça nas relaçons violentas entre as persoas, cos animais, as prantas e o resto do entorno (11). Por conseguinte, o esforço por superar esta consciência alienada fai entroncar, simultánea e necessariamente, dentro da perspectiva revolucionária a mudança radical persoal, social e ecológica. Estamos, em resumo, perante a necessidade histórica e mundial dumha revoluçom integral.
(1) Aclaro que com “classe trabalhadora” refiro-me à massa d@s trabalhadore/as que, para sobreviver, devem entregar-se à explotaçom capitalista, sem importar o que ele/as produzam (cousas, serviços, informaçom) e se som reconhecidos legalmente como assalariad@s. A visom reducionista da classe trabalhadora, tanto quando é defendida, como quando é utilizada como argumento contrario à centralidade social-revolucionaria, leva a perder de vista a luita de classes tal e como a temos ante os olhos e a despraçar a atençom dos problemas históricos práticos do desenvolvimento da luita e da subjetividade proletárias em favor de crenças mesiánicas ou da “construcçom de sujeitos” na imaginaçom. (2) Potencia-los relativamente, dada a dinámica geral de refluxo das luitas sociais que veu imperando desde meiados dos 70, com poucos repontamentos e sem que tenham possibilitado umha recuperaçom significativa. (3) Refiro-me evidentemente ao modelo de capitalismo de Estado nas suas distintas variantes, determinadas polo nível de desenvolvimento material de cada país, e que a grosso modo consistem em: as economías mixtas de inspiraçom keynesiana, as economías fascistas ou bonapartistas e as economías completamente estatizadas de inspiraçom bolchevique. Apesar das suas diferências, todas eram respostas à crise do modelo liberal decimonónico e compartiam em maior ou menor medida as mesmas formas de acçom estatal sobre a acumulaçom capitalista geral: incremento artificial da demanda, controlo dos preços, restricçom, supervisom e co-gestom da actividade económica privada, inversom e propriedade estatais directas e medidas de planificaçom global. Em todos os casos, o fundamento da vida económica seguia a ser o trabalho assalariado. (4) Vejam-se: K. Marx, O Capital, tomo III, secçom terceira - A lei da tendência decrescente da quota de benefício, os capítulos XIII-XV inclusive. (5) É dizer, repetindo a dinámica tópica dos movimentos sociais desde os 70, da que o “movimento anti-globalizaçom” foi umha exemplificaçom recente. Na Galiza também contamos com experiências similares que venhem mais ao caso, como o movimento Nunca Mais, no que, em lugar de clarificar o conflito ecológico em clave anticapitalista, a prática totalidade das forças participantes ou que convergiam nas protestas contribuiram a alimentar as ilusons esquerdistas no movimento e, assi, a mistificar a dinámica da luita social e incluso ocultar o seu precoz processo de institucionalizaçom. O resultado disto foi deixar crescer o gérmolo da divisom, do oportunismo, do mercantilismo e da demagogia, mantendo a protesta social dentro das canles establecidas. (6) Assí, esta dinámica está presente em cada capital particular, facendo da separaçom e competência frente aos demais capitais umha qualidade inherente ao sistema, que nom pode cambiarse meiante formas de planificaçom estatistas, que som progressivas da perspectiva da redistribuiçom da plusvalia na economía global dum país, mas regressivas do ponto de vista do desenvolvimento da acumulaçom nas unidades de capital consolidadas, nas que inibe o desenvolvimento ao reprimir o seu motor natural (a maximizaçom do beneficio) e impedir a soluçom do problema da ampliaçom do mercado e da supressom dos capitais ineficaces, razom pola qual fracassaram as formas totalitarias de capitalismo de Estado na URSS, Europa do Leste e Asia, que foram exitosas somentes na medida em que se aplicaram em países com condiçons de produçom maiormente pre-capitalistas e começaram a decair no momento em que alcançaram os níveis técnicos específicos do capitalismo desenvolvido. Por conseguinte, estas formas económicas tampouco podem aportar actualmente nengumha perspectiva de soluçom perante o problema ecológico. (7) Especialmente no relativo às grandes inversons em maquinaria ou às grandes fontes de materiais relativamente baratas ou com preços controlados. (8) Deste modo, ainda que aparentemente cousas muito distintas, a recuperaçom capitalista do ecologismo é similar ao acontecido na época em que, nos países mais desenvolvidos, se generalizou a reduçom legal da jornada laboral. Ao igual que neste caso, o sistema fazia sua umha reivindicaçom histórica dos trabalhadore/as à que antes se opuxera com unhas e dentes. No caso do ecologismo reformista, as motivaçons económicas vam convergendo coas motivaçons políticas, especialmente nos países europeus, nos que a dependência do petróleo constitue um lastre económico muito mais significativo do que para outros países, e onde a extensom da consciência ecológica favoreceu o desenvolvimento de novas áreas de mercado ou a revitalizaçom de outras velhas (a agricultura ecológica, por exemplo.). Verifica-se, pois, o mesmo que para as luitas operárias convencionais ao longo do século passado. Entom, quando o capital alcançara um nível de desenvolvimento técnico específico, deixou atrás as formas de produçom da manufactura feudal, incorporando a maquinaria a gran escala e a produçom de plusvalor despraçou-se da extensom da jornada laboral e a minimizaçom férrea dos salários (plusvalia absoluta) para o incremento da produtividade tecnológica do trabalho (plusvalia relativa), possibilitando conciliar a acumulaçom de capital com reduçons de jornada e um progresso económico geral nas condiçons de vida da classe trabalhadora. Assi pois, as luitas salariais funcionavam, nesta dinámica capitalista, como acicates do progresso tecnológico, que à sua vez funcionava como instrumento de poder dos capitalistas contra umha classe trabalhadora muito numerosa e concentrada, pulando deste jeito por reduzir o seu poder numérico e desenvolvendo o disciplinamento científico do trabalho. Em outras palavras, assi se explica que as luitas de classes do século XX, com exceiçom de breves episodios críticos ou revolucionários, fossem essencialmente luitas funcionais ao sistema capitalista, estimulando o seu desenvolvimento e operando como agentes da sua auto-regulaçom social, ponhendo em evidência as condiçons que faziam inestável a dominaçom capitalista antes de que produziram explosons sociais ou de que estas se generalizassem alimentando um movimento de massas anti-sistema. Isto mesmo está a acontecer claramente coas luitas ecologistas, devido à sua orientaçom parcial e reformista, em lugar de adoptar umha focage ecológica integral e revolucionária. (9) Isto já fora claramente previsto teóricamente e clínicamente pola psicologia social e caracteriológica de Wilhelm Reich. (10) Do mesmo modo que é preciso superar a separaçom entre as distintas luitas sociais a partir dumha focage de classe nom reducionista. (11) Isto também pode aplicar-se ao terreno da violência de gênero, se lembramos o sentido crítico de aquilo que dixera o jovem Marx nos Manuscritos de 1844, de que o home relaciona-se imediatamente coa mulher como “natureza” e, por isso, as relaçons entre os sexos som um índice do verdadeiro progresso social humano.
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SUSTENTABILIDADE:
ORIXE, USO E CONTIDO DO TERMO
V. M.
EL LENGUAJE INSOSTENIBLE
ALBERTO DOMÍNGUEZ
PAU E CENOURA
OTTO MÁS
COMO SE SOSTÉN ISTO?
REBECA BACEIREDO
CAPITALISMO E ECOLOGIA
ROI FERREIRO
SUSTENTAR A VIDA OU SUSTENTAR O DESENVOLVEMENTO?
AURELIA SMITH
A OPINIÓN DUN EXPERTO
REMIXIO F. S.
EL "MITO DE LA RIQUEZA" Y
EL "MOTIVO DEL MAIZ QUE LLORA"
PEDRO GARCÍA OLIVO
UNHA PANTASMA PERCORRE VIGO
GRUPO DE AXITACIÓN SOCIAL
O FUTURO DA LOITA CONTRA REGANOXO: CARA ONDE IMOS?
UN LIBERTARIO (REGANOSADEMOLIZON.ORG)
MEREXO RESISTE
DIEGO AMEIXEIRAS
CAPITALISMO...
VERDE E SUSTENTABLE
ENRIQUE LÓPEZ
FORMIGÓN, HEDRAS E SILVEIRAS
GRUPO ESTRUME E BORRALHA
UNHA LOITA SOSTIBLE?
ELISEO FERNÁNDEZ
TERRA DE COBRE E CHISPAS
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